Guilherme escreve

Pequeno manual para cagar na casa dos outros

Para ler ouvindo: Juca Chaves - Cagar É Bom Demais

Tá certo que todo mundo sabe cagar. Na média, essa é uma das poucas coisas que a gente nasce sabendo fazer e, melhor ainda, não esquece depois da primeira infância (não me conformo que só bebês saibam chupar um mamilo com tamanha destreza). No entanto, a socialização humana veio a mudar radicalmente este ato tão instintivo que é deixar rolar a bosta. Ainda mais quando se está fora de casa. Porque, convenhamos, castigar a própria louça é bem mais simples do que a louça alheia. Nada mais constrangedor do que infectar o banheiro de outrem com um aroma fétido ou — pesadelo de todo cagão — entupir uma privada. Há inclusive quem prefira segurar a encomenda até o retorno ao lar do que se arriscar fora de casa. Apesar desta tática ser altamente eficiente, sempre há os momentos em que simplesmente não dá pra segurar. Para evitar preocupações neste que é um dos momentos mais sublimes da existência humana, siga as dicas abaixo:

1 - Verifique o equipamento
O do banheiro, claro, porque o seu supostamente você já conhece bem. Preste especial atenção ao sistema de descarga: caixa acoplada ou direto da caixa d'água. Este passo é essencial, pois determinará a quantidade de água e a pressão disponível para você livrar-se da prova do crime. Via de regra, uma descarga da caixa d'água consegue resolver quase todo tipo de cagada, enquanto a caixa acoplada costuma ter dificuldades com um grande volume de, digamos, trabalho. Sempre dê antes uma descarga de teste para saber se a pressão, mesmo da caixa d'água, é boa. Não se esqueça, há sempre o risco de uma descarga quebrada. Informe-se discretamente com o dono da casa por via das dúvidas. Verifique, da mesma forma, a existência de papel higiênico no recinto sanitário; nada mais constrangedor do que ter que gritar para alguém repor o estoque depois que Inês é morta.

2 - Avalie o potencial de saída
Cagar não é uma ciência exata, mas dá pra ter de antemão uma boa noção do tamanho da bomba antes que ela exploda. Avalie o tempo transcorrido desde a última abertura da comporta, a quantidade e tipo de comida ingerida, a agressividade dos gases de processo e, por fim, o próprio histórico de merda. Há pessoas que simplesmente cagam em pequenas porções (os paulistas, meu pai sempre disse, não tem cu pra cagar grande, por exemplo), enquanto outras costumeiramente soltam verdadeiras toras de sequóia. Se você perceber que será muita areia para o caminhãozinho sanitário, considere cagar por partes, fracionando o tolete com a musculatura anal. É uma técnica apurada, mas que pode ser facilmente dominada com algum treino.

3 - Escolha o momento
Ainda que a merda aconteça sem horário marcado, normalmente é possível prever o deadline com certa antecedência. Evite postegar o alívio para momentos muito próximos da massa crítica, isto impedirá que você haja com naturalidade e raciocine com clareza. Tampouco deixe para visitar o Celite perto da hora de partir, o processo de evacuação intestinal é sabidamente propenso a demorar um pouco e ninguém quer cagar apressado. Tente agendar a cagada para quando todos estiverem conversando distraidamente e não forem notar sua eventual demora. Um momento ideal para realizar suas operações sujas é antes do banho. Antes, nunca depois. Caso um desastre ocorra — a saber, um entupimento por excesso de volume — o tempo de um bom banho costuma ser suficiente para amaciar o pacote. Lembre-se do ditado: água mole em merda dura, tanto enxarca até que, ufa!

4 - Seja prevenido
Além das verificações descritas na dica 1 (descarga e papel higiênico), prepare-se para contingências menos comuns (ao menos para a maioria). Carregue sempre consigo, ou veja se já há no local, uma caixa de fórforos. O princípio é simples e bastante científico: metano, além de feder pra bosta, é altamente combustível. Na eventualidade de um vazamento pesado de gases tóxicos, acenda ligeiro um fórforo e passeie com ele pelo ambiente da sala de banhos, a fim de consumir a maior parte do fétido gás. Em casos extremos, vale também confeccionar uma pequena tocha com papel higiênico que terá maior poder de ação. Só cuide para não produzir uma incriminadora fumaça nem deixar vestígios, jogando a tocha na privada antes de ela se apagar. Nunca, em hipótese alguma, descarte tal artefato na lixeira, sob risco de incêndio e um desmascaramento vergonhoso.

Seguindo estas dicas, você diminuirá drasticamente as chances de se envergonhar das cagadas que faz. Relaxe e muita merda pra você!

Publicado em 27 de janeiro de 2005 às 02:55 por guilherme

Comentários

    • Aquela parte que falava dos paulistas, só pra esclarecer: carioca é que tem cu pra cagar grosso, é?
    • por Vincent Vega
    • 27.Jan.2005 às 04:13 - Permalink - Reportar
    Vincent Vega
  1. guilherme
    • Algumas considerações:
      1 - Não mate a Inês. Ela não tem culpa e é tão boazinha.
      2 - O fósforo é uma excelente estratégia, mas é uma denúncia branca.
      3 - Vc esqueceu de um importante item: a vassourinha. Riscos na porcelana alheia são altamente constrangedores.
    • por salome
    • 27.Jan.2005 às 09:36 - Permalink - Reportar
    salome
    • Ótimo post. Eu diria que é um tratado científico.
    • por Paulo Briguet
    • 27.Jan.2005 às 11:10 - Permalink - Reportar
    Paulo Briguet
    • Não, criançada, não. Este post não é um merda e o autor não cometeu nenhuma cagada.
    • por Bozinho, influenciado pelo pai
    • 27.Jan.2005 às 12:22 - Permalink - Reportar
    Bozinho, influenciado pelo pai
    • cara, ela é sua vizinha. ela acabou de passar na frente de casa. eu sabia que a conhecia de algum lugar. muito mais linda que a lucinha. meu, quem é essa deusa? quem?
    • por grota
    • 27.Jan.2005 às 12:29 - Permalink - Reportar
    grota
    • já até vejo este post sendo multiplicado por e-mail, com autoria atribuída a luis fernando verissimo ou millôr fernandes.
    • por zero
    • 27.Jan.2005 às 13:50 - Permalink - Reportar
    zero
    • vale lembrar que aquelas descargas de caixinha que você só aperta uma bóia são as piores, não tem pressão nenhuma. as de caixa penduradas também são ruins, visto que demoram pra recarregar. duas descargas seguidas são uma prova cabal do crime. as melhores mesmo são as de apertar um botão na parede e deixar a mão ali até ir tudo.
    • por vidal
    • 27.Jan.2005 às 14:04 - Permalink - Reportar
    vidal
  2. guilherme
    • Cara, o segredo de uma boa cagada na casa dos outros é cagar e dar descarga, cagar e descarga, cagar e dar descarga... Bosta boiando é que fede pra caralho. Aí vc pode perguntar, e o barulho de várias descargas consecutivas? foda-se, pelo tempo, todo mundo na casa vai saber que vc tá cagando.
    • por eu cago fumando
    • 27.Jan.2005 às 17:55 - Permalink - Reportar
    eu cago fumando
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